Como é que a canábis afeta a perturbação bipolar?

Em fevereiro de 2025, um dos jornais de maior impacto em Espanha publicou um artigo intitulado «A canábis pode desencadear uma perturbação bipolar», no qual o Dr. Eduard Vieta, chefe de psiquiatria do Hospital Clínic, alerta para os riscos do consumo de canábis. A afirmação do título teve impacto, sobretudo entre quem procura alternativas dentro do mundo da canábis, como o CBD.
A perturbação bipolar é um problema de saúde mental caracterizado por alterações extremas do humor, que vão desde episódios de euforia até períodos de depressão profunda. Dada a crescente popularidade do canabidiol (CBD) e do uso medicinal e recreativo da canábis, muitas pessoas com perturbação bipolar perguntam-se como as poderão afetar estes canabinoides. A seguir, apresentamos-te um panorama geral da investigação científica sobre a relação entre o consumo de CBD e de THC na perturbação bipolar, destacando possíveis riscos e áreas de incerteza.
O que é a perturbação bipolar?
A perturbação bipolar é uma doença psiquiátrica complexa que provoca mudanças bruscas de humor, que podem interferir no trabalho, nas relações e nas atividades do dia a dia. Há dois tipos principais:
- Perturbação bipolar I: caracteriza-se por pelo menos um episódio de mania, geralmente acompanhado de episódios depressivos.
- Perturbação bipolar II: caracteriza-se por episódios depressivos recorrentes e episódios hipomaníacos (uma forma menos grave de mania).
Aproximadamente 2,4 % da população mundial sofre desta doença em algum momento da vida (1). O tratamento costuma incluir estabilizadores do humor (como o lítio ou o valproato), antipsicóticos e terapia psicossocial.
Qualquer substância que afete o cérebro, incluindo a canábis, pode complicar o tratamento e potencialmente agravar os sintomas da perturbação bipolar.
Como é que a canábis atua no cérebro?
A canábis contém numerosos canabinoides, sendo os mais conhecidos o THC (tetra-hidrocanabinol) e o CBD (canabidiol). O THC produz a «moca» ou efeito psicoativo, enquanto outros canabinoides, como o CBD, têm efeitos psicoativos menores ou nulos.

Uma vez que canabinoides como o THC exercem os seus efeitos no cérebro, é importante sublinhar que quanto mais jovem for a pessoa que consome canábis de forma frequente ou intensa, maior poderá ser a sua vulnerabilidade a sofrer alterações na química cerebral (2). Isto deve-se, em grande parte, aos efeitos do THC no cérebro.
O tetra-hidrocanabinol (THC) é o principal composto psicoativo da canábis. O THC atua sobre o sistema endocanabinoide, que desempenha um papel fundamental na regulação do humor, do sono e da resposta ao stress. No entanto, o seu consumo frequente pode alterar este equilíbrio, especialmente em pessoas jovens, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento.
O teor de THC da marijuana aumentou significativamente nas últimas décadas, passando de aproximadamente 4 % para até 35 % de THC em menos de 30 anos. Este aumento da potência da canábis amplifica os riscos associados ao seu consumo na atualidade.
Atualmente existem variedades de canábis sem THC, o CBD, com um teor inferior a 0,3 % de THC. Aliás, algumas pessoas usam o CBD para deixar os charros.
Consumo de canábis na perturbação bipolar
Vários estudos mostram que quem sofre de perturbação bipolar poderá consumir canábis com mais frequência do que a população em geral. Entre as razões desta tendência incluem-se a automedicação para atenuar sintomas de ansiedade ou insónia, a coexistência de outras perturbações por consumo de substâncias e certas predisposições genéticas ou ambientais (3).
Embora algumas pessoas digam que a canábis alivia a ansiedade ou os sintomas depressivos, a evidência científica sobre a sua eficácia continua a ser limitada e, por vezes, contraditória.
Riscos potenciais do consumo de canábis na perturbação bipolar
Uma das conclusões mais consistentes da literatura é que o consumo de canábis pode agravar os sintomas maníacos ou hipomaníacos (3). Nem todas as pessoas reagem da mesma forma, mas o consumo frequente ou intenso tem sido associado a uma maior probabilidade de prolongar ou desencadear os episódios de mania, aumentar a impulsividade e favorecer comportamentos de risco (2).
Embora se tenha observado que a canábis poderá agravar a mania, algumas pessoas relatam um alívio a curto prazo dos sintomas depressivos. No entanto, estas experiências são em grande parte subjetivas e não estão apoiadas por estudos clínicos conclusivos. Além disso, a automedicação com canábis na perturbação bipolar pode ser perigosa, e deve consultar-se sempre um profissional de saúde mental.
O CBD na perturbação bipolar
Ao contrário do THC, o CBD não é psicoativo e tem despertado interesse na investigação médica pelas suas possíveis propriedades ansiolíticas, anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Alguns estudos preliminares sugerem que doses altas de CBD poderão ajudar a tratar sintomas depressivos na perturbação bipolar. Além disso, tem sido investigado o seu potencial efeito antipsicótico em doenças como a esquizofrenia.
Embora não haja evidência de que o CBD agrave a perturbação bipolar, os estudos ainda são limitados, e são necessários mais ensaios clínicos para determinar a sua eficácia e segurança como parte do tratamento.
Detalhes: estudos científicos sobre CBD e perturbação bipolar
Existem estudos preliminares que indicam que o CBD poderá ter efeitos ansiolíticos, anti-inflamatórios e neuroprotetores. No entanto, a evidência científica sobre a sua eficácia direta na perturbação bipolar é limitada (5). Alguns investigadores levantaram a possibilidade de doses altas de CBD (300 mg por dia ou mais) poderem ajudar na depressão bipolar, mas faltam ensaios clínicos que o confirmem de forma sólida (6).
O CBD também tem sido estudado pelas suas possíveis propriedades antipsicóticas na esquizofrenia (7), uma perturbação que por vezes partilha características com a mania bipolar. Embora estes resultados não sejam diretamente aplicáveis à perturbação bipolar, sugerem que o CBD poderá ter alguma utilidade no controlo de sintomas psicóticos em episódios maníacos. Apesar disso, não foram descritos efeitos negativos claros do CBD na perturbação bipolar, embora continuem a faltar dados definitivos.
Implicações clínicas da canábis na perturbação bipolar
Os profissionais de saúde devem perguntar por rotina sobre o consumo de canábis nas pessoas com perturbação bipolar, uma vez que poderá afetar a evolução da doença. Da mesma forma, convém que tanto os doentes como os seus familiares estejam a par dos riscos associados ao uso de substâncias psicoativas como a canábis, especialmente pela sua relação com recaídas maníacas e deterioração cognitiva.
Embora se tenha sugerido que o CBD poderá ser útil como tratamento complementar para a depressão bipolar (6), é necessária mais investigação nesse sentido. Entretanto, é fundamental que as pessoas com perturbação bipolar evitem a automedicação sem supervisão médica, pois poderá desequilibrar o humor e complicar o tratamento estabelecido.
Conclusão
A evidência científica indica que o consumo de canábis poderá apresentar riscos para quem sofre de perturbação bipolar, entre eles um maior risco de episódios maníacos, uma possível deterioração da função cognitiva e complicações no tratamento. Embora alguns consumidores relatem um alívio temporário da depressão, estes dados não contam com um apoio clínico sólido. No caso específico do CBD, são necessários ensaios clínicos mais amplos para determinar com exatidão os seus benefícios e riscos nesta perturbação.
Nota: Este é um artigo informativo sem caráter prescritivo e não tem como objetivo prevenir, diagnosticar ou tratar qualquer doença. O seu conteúdo pode complementar, mas nunca deve substituir, o diagnóstico ou o tratamento de qualquer doença ou sintoma. Se tu ou alguém próximo de ti tiver sintomas de perturbação bipolar, ou se estiveres a pensar em alterar o teu tratamento (incluindo o uso de canábis), consulta um profissional de saúde. Os produtos da Cannactiva não são medicamentos e destinam-se a uso externo. Podem existir novas evidências científicas relevantes desde a data de publicação. Consulta o teu médico antes de utilizares CBD. O aconselhamento terapêutico deve ser personalizado e depende da avaliação profissional.
Referências
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Perguntas frequentes
O consumo de canábis causa perturbação bipolar?
Até ao momento, não se comprovou que o consumo de canábis seja a causa direta da perturbação bipolar. No entanto, em pessoas predispostas a perturbações do humor, o consumo frequente de canábis poderá desencadear o primeiro episódio bipolar. Uma revisão científica indica que quem consome canábis de forma habitual tem mais probabilidades de desenvolver a perturbação bipolar pela primeira vez, o que sugere que a canábis poderá atuar como fator desencadeante em indivíduos vulneráveis (2). Além disso, o uso intenso e prolongado de canábis tem sido relacionado com um maior risco de psicose em indivíduos propensos a apresentar este tipo de sintomas (4), embora nem todas as pessoas com perturbação bipolar que consomem canábis venham a desenvolver psicose.
O CBD causa perturbação bipolar?
Não, não há evidência científica que indique que o CBD cause perturbação bipolar. Aliás, alguns estudos sugerem que poderá ter potenciais benefícios, embora o seu uso na perturbação bipolar ainda necessite de mais investigação.



